
Desde que eu conheci o primeiro vegetariano, fiquei impressionado pela dedicação e comprometimento dessas pessoas com esse, digamos, estilo de vida. Nunca mais comer uma picanha recém tirada das brasas e ainda vertendo sangue, nunca mais comer uma costela daquelas que praticamente se soltam do osso, nunca mais poder comer bacon! Só sei que eu não conseguiria viver dessa maneira, há mais mistérios entre o bacon e o estômago do que sonha a nossa vã filosofia. E por mais que eu goste de inúmeros vegetais e seja fã de uma saladinha de vez em quando, passar o resto dos meus dias à base só desses alimentos é mais improvável do que eu citar Shakespeare sem avacalhar nada.
Mas é claro que eu não estaria fazendo esse post se não houvesse uma espécie de conflito envolvendo quem come carne e quem só curte um capinzinho. Em geral, quem gosta de comer carne não costuma tentar impor sua vontade sobre os vegetarianos, mas acontece que a recíproca não é verdadeira. O excesso de clorofila deve afetar de alguma forma essas pessoas, porque é impressionante a ânsia que uma parte delas têm de doutrinar e constantamente expor os malefícios da carne. É como se o vegetarianismo fosse uma religião, e todos os infiéis pecadores devessem ser punidos.
Eu sou uma pessoa libertária, e acho que cada um deve ter o direito de fazer absolutamente tudo que quiser enquanto não causar prejuízos aos outros ou a si mesmo. É talvez por isso que eu ache extremamente chato e arrogante quando alguém embarca num monólogo extremista e afirma que só as suas convicções estão certas. Quer ser vegetariano? Pois fique à vontade, só não venha encher o meu saco para que eu também seja. Aquele bifão suculento e com um naco de gordura do tamanho da Torre Eiffel (valeu, TT) vai acabar me matando daqui a 40 anos? Olha só, eu nunca teria imaginado! Tratar os onívoros como aberrações é fechar os olhos para milhares de anos de evolução. Se conseguimos digerir e absorver os nutrientes das carnes, é porque nosso organismo está capacitado para tanto e se beneficia da sua ingestão. E se um excesso de carne vermelha pode acabar nos matando, bom, então experimentem um excesso de polenta para ver o que acontece. Exatamente a mesma coisa.
Existem também aqueles que apelam para a questão da crueldade com os animais. Que enquanto nós continuarmos tendo imensas criações cujo único objetivo é o abate, nós seremos os caras malvados maltratando os pobres bichinhos. Pois então deixem-me contar uma pequena história aqui. Era uma vez um pequeno rebanho de vacas e bois selvagens, que viviam soltos numa grande área, perto de um açude e com pasto de sobra para todos eles. Eles passavam os seus dias esparramados sobre a grama, só comendo e engordando. Até que um dia, num verão anormalmente quente, a seca sobreveio. O pasto rareava, a paisagem tornara-se amarelada e o açude ia ficando cada vez mais raso. Após umas poucas semanas, nada mais havia para as vacas e bois comerem e, um a um, eles foram tombando na terra ressecada. Por uma coincidência maligna, a última das vacas a ficar de pé era também aquela que estava para parir dali a alguns dias. E depois de mais algum tempo, sustentada sabe-se lá por que forças, ela começa a entrar em trabalho de parto. Enfraquecida pelos longos dias de pastagens escassas, a vaca é obrigada a deitar-se, enquanto o seu pequeno bezerro luta para nascer. Por um outro acaso infeliz, a posição do bezerro não é boa e, ao invés de suas patas dianteiras e cabeça saírem por primeiro, ele sai meio atravessado e acaba ficando preso. Após algumas horas de sofrimento, tanto a vaca quanto o bezerro não aguentam mais tamanho esforço e acabam morrendo. Uma história triste, mas que poderia ser muito diferente se houvesse alguma intervenção humana. Vejamos: temos as mesmas vacas, os mesmos pastos, o mesmo açude, mas dessa vez tudo isso está dentro da propriedade de um pecuarista. Ao notar que uma provável seca venha a acabar com seus pastos, ele nem ao menos se preocupa, pois sabe que as silagens estocadas darão conta de alimentar o seu gado por muito tempo. Quando o açude começa a secar, ele transfere as vacas para um outro piquete onde há água abundante, graças a um poço artesiano. E quando aquela mesma vaca que teve dificuldade em dar a luz ao seu bezerro entra em trabalho de parto, ele logo nota que há algo errado e rapidamente vai ao auxílio dela, salvando tanto a vaca quanto o bezerro. Moral da história: embora essas vacas e bois provavelmente iriam acabar no prato de alguém, eles tiveram uma vida com muito menos sofrimentos e uma morte muito menos dolorosa do que aqueles que tiveram de enfrentar longos dias de seca. É claro que um caso desses é bastante incomum, mas mesmo assim serve para ilustrar que nem tudo é crueldade e sofrimento quando se fala nesse assunto.
Saindo da ficção e voltando à realidade, há, entretanto, uma categoria de vegetarianos que eu ainda não consigo entender: os vegans. Como pode ser possível evitar qualquer produto de origem animal, quando não temos como saber com certeza quais são todas as matérias-primas utilizadas pelas grandes indústrias? Como ter certeza se a lã daquele suéter é de origem animal ou não? E o couro daquele sapato? E mesmo que alguém renuncie a todas essas comodidades, como escapar da nossa própria natureza humana? Pois se um vegan não pode consumir nada proveniente de animais, então eu presumo que seus filhos não poderão tomar o leite materno, o que, francamente, seria uma coisa para lá de tosca. É claro que eu estou levando essas suposições a extremos aqui para mostrar o meu ponto de vista, mas, mesmo assim, acho que não estou sendo muito mais extremista do que os próprios vegans são. Privar-se de alguns bens e facilidades supérfluos pode ser muito saudável, mas levar essa ideologia às raias da loucura me parece uma tentativa de fuga da nossa própria condição humana. Mais ou menos como se ao deixar de lado parte do que efetivamente nos torna humanos, essas pessoas se tornassem mais animalescas do que aquelas que comem carne sem nenhuma culpa.
Enfim, o importante é que, diferenças à parte, há bastante espaço nesse mundo para todas as criaturas de Deus. Mesmo que seja ali ao lado do purê de batatas.
6 comentários:
Esse é um problema de minorias. Eles tentam de alguma forma achar algum espaço entre o pensamento "mainstream" em qualquer aspecto, seja da Economia ou da Culinária.
Em Economia, eu não conheço nenhum militante conservador, anti-governo (pró-mercado), mas conheço militante comunista, socialista, petista, nazista (tudo a mesma coisa).
Em culinária, eu não vejo ninguém militar pela comilança não-saudável. Propagandas em televisão falando do bem que faz uma bela picanha ou algo do gênero. Mas eu vejo volta e meia esses vegeratianos achando que podem forçar alguem a mudar sua dieta.
O que tudo isso tem em comum é a tentativa de inibir a liberdade das pessoas de ser o que elas desejam ser, de comer o que elas querem comer.
Alguém discorda que uma democracia livre é melhor que uma ditadura? Logo, não há motivos pra não tratarmos vegetarianos-militantes como inimigos do sistema huauhauah
Eles nao ficam mais ou menos felizes quando eu como um pedaço de maminha ou como um tomatão.
Em "economês", cada um tem sua função de utilidade, e como cada uma das funções da sociedade não são comparáveis entre si, apenas a própria pessoa sabe o que é melhor pra si.
Então, larguem do meu pé, vegans dos inferno.
Bah, eu acho que conheço mais de 15 vegetarianos e fui relativamente próximo de ao menos uns 5 deles. Nenhum, em momento algum, agiu da forma estúpida e catequisadora que tu descreveu.
Eu conheço muito menos espíritas, por exemplo, e quase todos tentaram me catequisar. Talvez o fato de eu ser físico atice os fiéis em geral a se sentirem desafiados a me converter, sei lá. Mas os vegetarianos que eu conheço são todos super gente boa e respeitam totalmente os hábitos alimentares alheios.
Sobre o comentário do Sherman, claro que só existem militantes de minorias. Afinal, os radicais pertencentes à maioria não precisam militar por nada - o cara já é feliz com as coisas como elas são e que se foda.
No mais, maiorias excessivas afetam a liberdade individual também, no sentido que excluem alternativas. Por exemplo, o vegetariano que acaba num restaurante sem pratos pra ele, o cara que gosta de basquete e vê o basquete ser tratado como não-esporte na educação física e o pesquisador em cosmologia que acredita que o Big Bang é uma má teoria.
Elaborando no último caso, o fanatismo da maioria dos cosmólogos pelo Big Bang motivou, há uns 5 anos, o protesto de 3 cientistas, que cujas teorias sequer eram levadas a sério porque eram alternativas ao Big Bang. Olha, as teorias dos caras podem até ser pura bobagem. Mas quando para sustentar o Big Bang é necessário postular a existência de uma certa quantidade de massa que nunca foi detectada diretamente e essa massa seria mais de 99% da massa do universo, eu sou obrigado a achar injusta a opressão a quem busca alternativas.
Moral: acho que em qualquer grupo social que possa ser definido por interesses comuns vai conter gente determinada a impor suas crenças aos demais, seja esse grupo maioria ou minoria.
Sim, como eu falei no post, são só algumas pessoas que se comportam assim, não todas. Inclusive, eu costumava almoçar bastante com 2 colegas de faculdade vegetarianos no primeiro semestre e eles nunca chegaram a mencionar qualquer coisa negativa em relação aos não-vegetarianos.
Mas há pessoas e pessoas, e qualquer um que tentar me fazer mudar de opinião por meios que não o diálogo, seja em relação ao vegetarianismo, seja em relação a qualquer outra coisa, será considerado pela minha pessoa um chato de galochas e estará sujeito a um post aqui. Fora que um post sobre bacon sempre é muito style.
Huahuahuahua! De acordo.
Hehehehe...sou vegetariana mas não encho o saco de ninguém. Ninguém tem nada que ver com o meu estômago, francamente. :p
Pra gente que é do sul, a coisa fica mais chata ainda. Um discurso extremista esculachando a carne não é a coisa mais legal do mundo pra se ouvir quando tu te acostumou a praticamente todo domingo comer churrasco no almoço. Minha prima uma vez me encheu o saco porque ela faz nutrição e viu na faculdade que o RS era o estado com o maior índice de sei lá o que porque comemos muita carne vermelha... mas é a vida, assim como eu posso morrer atropelado amanhã, eu posso viver 100 anos como a irmã da minha bisavó ou eu posso morrer com uma artéria entupida daqui a 40 anos, são riscos e temos que conviver com eles, eu decidi aceitar o risco, fazer o que...
Quanto à Torre Eiffel... que bela escolha hein!
Bacon for life!
OBS: Hoje volto à PoA, preciso de churrasco!
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