terça-feira, 13 de outubro de 2009

Promessa é dívida, ou algo assim

Lá no primeiro post deste blog eu falei altas bobagens, incluindo que haveria posts com contos, histórias e afins. Acho que só o que eu postei foi um conto literalmente meia boca, já que ele tava pela metade mesmo, e mais um outro tão velho que eu nem lembro de quando é.

Bom, se alguém se sentia incomodado com isso, seus problemas acabaram. Comecei há alguns dias uma série de pequenos contos, e eles são simples o suficiente para que eu consiga escrevê-los numa boa periodicidade. Basicamente, são breves relatos de um determinado acontecimento na vida de pessoas aleatórias como nós, eu, você, todo mundo. Não há a pretensão de fazer algo muito profundo ou inspirador, no geral serão apenas observações e a narração de coisas que eu vejo no cotidiano.

Eis que aí vai a bagaça, com direito a jump depois do primeiro parágrafo, que é pra dar uma de João Kléber.

Vera Oliveira, cobradora de ônibus. Aceitara este trabalho apenas porque ele lhe permitia ler entre um embarque de passageiros e outro. Aproveitava para estudar a apostila do curso técnico, que frequentava todas as terças e quintas à noite. Seu sonho: ser cabeleireira. Não sabia escrever a palavra, e às vezes até se enrolava um pouco em sua pronúncia, mas tinha a cega convicção – natural àqueles predestinados a um futuro de estrondoso sucesso ou retumbante fracasso – de que nascera para a coisa.

Aqui toda a bagaça!
  
Desde que o seu marido arranjara, sabe-se lá como, uma daquelas cadeiras com uma espécie de pia acoplada – presente em qualquer salão que se preze – que ela se via fascinada por essa ideia. Isso já fazia quase três anos. A cadeira, que já era usada, ameaçava desenvolver um ecossistema próprio no quintal da sua casa. Tal procrastinação poderia ser vista como medo, preguiça ou falta de empenho. Nada poderia estar mais longe da realidade.
Envolvida nos serviços de casa e na criação de seu filho, pouco tempo sobrava para que Vera se entregasse a devaneios. Apesar da certeza de sua vocação, aprendera com sua mãe a manter a cabeça no presente. "O futuro a Deus pertence", era o que ela dizia, repetindo o desgastado adágio cada vez que via sua filha com o característico olhar sonhador das adolescentes, deslumbrada com filmes, revistas e comerciais de produtos que não haviam sido feitos pensando nela, mas que, ainda assim – ou por isso mesmo –, tinham um efeito mais devastador do que em seu verdadeiro público.
Deixar-se levar por ilusões não fazia parte de sua personalidade verística. Assim que seu filho tornou-se grande o suficiente para que tomasse conta de si mesmo, ela botou seu plano em ação: arrumar um emprego que lhe permitisse bancar um curso de cabeleireira e em que sobrasse algum tempo para os estudos. E é por isso que, ao menos momentaneamente, assumira a condição de cobradora de ônibus. Viu nessa função não uma metáfora para sua vida recheada de voltas que acabavam dando sempre nos mesmos lugares, mas sim a chance de viver os sonhos da adolescente que ainda estava em algum recanto perdido da sua mente.
Apesar do caráter temporário de seu trabalho, nunca fizera-o de má vontade ou sem o devido esforço. Era amável com todos os passageiros e sempre muito solícita quando questionada sobre o trajeto da linha ou sobre tal e tal rua. Todo esse empenho era exatamente a sua maneira de não se deixar envolver, mantendo afastadas quaisquer complicações que poderiam ser causadas por uma eventual falta de competência.

Talvez por isso a incomodasse tanto que Sebastião, o motorista com quem costumava dividir seus turnos, permitisse e até gostasse que aqueles músicos bolivianos entrassem no ônibus – pela porta de trás, e sem pagar, portanto – apenas para incomodar os passageiros. Ela tinha a impressão de que por baixo de seus gorros de lã e por trás de seus sorrisos indígenas de zigomas salientes se escondia algo estranhamente primitivo e traiçoeiro, como se estivessem apenas aguardando o momento certo para mostrar suas reais intenções. Este era, é claro, um medo infundado. O máximo que os bolivianos faziam para importunar os passageiros era tocar a sua música andina histriônica e de exagerados refrões.

Pior ainda era o fato de que eles viajavam de graça, às custas da empresa, e ainda ganhavam alguns reais a cada uma de suas mambembes apresentações. Na verdade, isso causava a Vera mais medo do que indignação. E se, por conta de um desses deslizes de Tião, ela acabasse levando a culpa também e perdesse a única fonte de sustento de suas ainda não realizadas aspirações? Devia confrontar o motorista, mostrar-lhe que não só não ganhavam nada com a presença daqueles bolivianos, como também arriscavam seus empregos. Era isso que ela ia fazer.

Até que um dia, sem que lhe fosse dado nenhum aviso, dois garotos subiram no ônibus em que ela trabalhava. Subiram pela porta da frente, que fique claro. Entraram em meio aos demais passageiros, um ao lado do outro, e com a confiança de quem já parecia ter feito aquilo incontáveis vezes. Fazia frio lá fora, as árvores inclinando docilmente seus galhos para o vento daquele fim de tarde. Os dois pequenos trajavam bermudas e camisetas, indiferentes à ameaça de temporal escondida no lusco-fusco. O maior dos dois era uma roliça figura de cabelos encaracolados. A puída camiseta ficava justa em seu abdômen, as marcas do longo tempo de uso visíveis, o suor misturado com terra, pó e fuligem formando uma intrincada rede de formas abstratas por toda extensão de seu sólido torso. O cabelo era brilhoso e ensebado, vítima da mesma química que manchara a camiseta de seu dono. Em seus pés, o par de chinelos vinha muito gasto – as solas mais carcomidas na parte de dentro por conta de sua pisada deficiente –, e as tiras ameaçavam soltarem-se apenas à menção de um movimento mais brusco. O menor dos garotos tinha um par de tênis de cano alto que em outros tempos certamente havia sido muito bonito e vistoso, mas que, naquele instante, não passava de um amontoado de pedaços de couro, todos muito gastos e toscamente costurados entre si.

Esperaram que todos os passageiros passassem pela roleta e dirigiram-se a Vera, o olhar suplicante tão gasto quanto suas roupas. O mais velho, que só os demasiado politicamente corretos não chamariam de gordo, foi quem falou: "Tia, a gente pode passar por baixo da roleta?". Os pensamentos que ocorreram a Vera naquele instante foram tantos que perder-se-ia o foco da narrativa ao se tentar descrevê-los em detalhes. Cabe apenas dizer que ela lembrou, em sucessão, dos bolivianos e do som irritante de suas flautas, da cadeira largada em seu quintal há incontáveis meses, de sua mãe e os princípios morais inflexíveis e fundamentalmente católicos que regiam seu caráter, da conta pendente no boteco que ficava na esquina de sua casa e, por fim, de seu filho, cuja fisionomia e tom de pele se assemelhavam vagamente ao daquele menino que parecia usar um par de tênis três números maior do que seus pés.

Após esse instante de hesitação, fez que sim com a cabeça e lá foram eles por baixo da roleta. O menor com leveza e até um certo desdém, o rechonchudo de maneira desajeitada e ofegante. Rumaram até o fundo do veículo e lá ficaram por um tempo indefinido.

Quando o ônibus ia já quase vazio e perto do fim de sua linha, os dois começaram a se movimentar. Colocaram-se perto da porta, um ao lado do outro, exatamente da mesma maneira como haviam entrado. Vera não pôde evitar um leve sorriso ao ver aquela cena. Achou que, afinal, não havia tanto mal assim em ajudar os mais necessitados, mesmo que para isso fosse preciso quebrar algumas regras que, no fim das contas, só privilegiavam os mesmos velhos abastados.

Os freios do ônibus rangeram, suas portas começaram a abrir. Os garotos trocaram um fugaz olhar e, antes que Vera pudesse sequer esboçar um grito de reação, uma mão gordinha, de dedos semelhantes a salsichas, pegou o celular de uma passageira incauta e saiu porta afora, a seu lado um par de canelas tão finas que chegava a dar pena.

3 comentários:

Matheus "TT" Freire disse...

Certo que se eu entregasse esse texto pra Têre, ela me dava 0,7. Ainda falaria pra usar palavras menos difíceis e melhorar a letra...

Ah, o final foi previsível.

Ah[2], Deletei o comentário anterior.

Augusto disse...

Não entendi o que que a Tere tem a ver com qualquer coisa no texto, uuahauh.

E deletei definitivamente o comentário que tu tinha deletado antes.

Vitor S. disse...

E o blog foi jogado às traças.